Quando não queremos compreender o que pode mudar nossos planos
EVANGELHO DO DIA: Lc 9,43b-45
Naquele tempo, todos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia. Então Jesus disse a seus discípulos: “Prestai bem atenção às palavras que vou dizer: o Filho do Homem vai ser entregue às mãos dos homens”. Mas eles não compreendiam esta palavra. O sentido lhes ficava oculto, de modo que não podiam entender. E tinham medo de fazer perguntas sobre o assunto.
Enquanto todos estão admirados com aquilo que Jesus realiza, Ele se volta para os discípulos e lhes diz: “Prestai bem atenção às palavras que vou dizer: o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens”. Os discípulos, porém, não compreendem. O sentido permanece encoberto para eles e, embora não entendam, “tinham medo de fazer perguntas sobre o assunto”.
O contraste é profundamente humano. A multidão contempla o êxito; Jesus fala de vulnerabilidade. Todos se maravilham com sua força; Ele anuncia que será entregue. Os discípulos encontram-se diante de uma palavra que não corresponde ao que esperavam e, em vez de perguntar, permanecem no medo.
Há momentos em que nossa maior dificuldade não está em não compreender, mas em temer aquilo que poderemos descobrir se perguntarmos de verdade. Algumas perguntas podem exigir mudanças, desmontar expectativas, revelar fragilidades ou colocar-nos diante de realidades que preferíamos manter indefinidas. O Evangelho de hoje nos convida a uma espiritualidade capaz de permanecer diante daquilo que não compreendemos, sem preencher o desconhecido com respostas apressadas nem fugir das perguntas necessárias.
REFLEXÃO:
1. “Todos estavam admirados”: o reconhecimento pode tornar-se perigoso quando precisamos dele para saber quem somos
Jesus acaba de realizar algo que provoca admiração. Todos estão impressionados.
Ser reconhecido faz bem. A necessidade de reconhecimento pertence à condição humana. Precisamos sentir que nossa presença possui valor, que nossos esforços são percebidos e que aquilo que fazemos pode produzir algum bem.
O problema começa quando o reconhecimento deixa de ser algo que recebemos e passa a ser algo de que dependemos para sustentar nossa identidade.
Então a crítica pesa demais. A ausência de agradecimento parece desprezo. O sucesso de outra pessoa pode ameaçar. Começamos a selecionar escolhas segundo aquilo que preservará nossa imagem.
Podemos até continuar fazendo coisas boas, mas interiormente tornar-nos cada vez mais dependentes do olhar alheio.
Jesus não organiza sua identidade a partir da admiração da multidão. Justamente quando todos estão maravilhados, Ele fala aos discípulos sobre aquilo que não possui aparência de sucesso: será entregue.
Isso revela uma liberdade extraordinária.
Jesus não precisa corresponder à imagem que os outros construíram sobre Ele.
Essa palavra toca nossa existência de maneira concreta. Há períodos em que somos reconhecidos, necessários, consultados e valorizados. Há outros em que deixamos o centro, uma função termina, alguém mais jovem assume responsabilidades, nossa opinião deixa de ser tão procurada ou simplesmente não recebemos o reconhecimento que esperávamos.
Se nossa identidade estiver excessivamente apoiada no que fazemos e no lugar que ocupamos, essas mudanças poderão ser experimentadas quase como perda de nós mesmos.
Por isso, a pergunta espiritual é também profundamente humana:
“Quem sou quando não estou sendo admirado, necessário ou reconhecido?”
A liberdade interior cresce quando conseguimos realizar o bem sem precisar transformar cada resultado positivo numa confirmação de nosso valor.
2. “O Filho do Homem vai ser entregue”: a vida não pode ser construída apenas a partir daquilo que conseguimos controlar
Jesus utiliza uma palavra desconcertante: “ser entregue”.
Existe aqui uma experiência de vulnerabilidade. Algo acontecerá que não estará organizado segundo a expectativa dos discípulos.
Todos nós encontramos momentos semelhantes. Podemos planejar, escolher, prevenir e assumir responsabilidades, mas há uma parte da existência que não permanece sob nosso controle.
O corpo muda.
Pessoas fazem escolhas que não podemos determinar.
Relações atravessam transformações.
Projetos não acontecem como imaginávamos.
Perdemos coisas que considerávamos permanentes.
Precisamos enfrentar acontecimentos para os quais não estávamos preparados.
A experiência do limite pode despertar ansiedade porque confronta uma fantasia silenciosa: se formos suficientemente prudentes, competentes e responsáveis, talvez consigamos evitar grande parte da vulnerabilidade.
Mas viver significa também estar exposto ao imprevisível.
Isso não significa romantizar o sofrimento. O Evangelho não nos pede para procurar dores nem aceitar passivamente aquilo que pode e deve ser transformado. Há sofrimentos diante dos quais a resposta responsável é proteger, denunciar, tratar, afastar-se ou pedir ajuda.
Entretanto, existem realidades que não podem ser simplesmente eliminadas.
Nesses momentos, maturidade significa aprender a distinguir:
o que posso transformar, o que preciso enfrentar e o que terei de aprender a atravessar.
Essa distinção protege-nos de dois extremos: a resignação diante daquilo que poderíamos mudar e a exaustão de tentar controlar aquilo que não depende de nós.
Jesus não perde sua identidade quando entra na vulnerabilidade.
Talvez essa seja uma graça importante: aquilo que nos acontece pode modificar profundamente nossa história sem possuir necessariamente o poder de destruir quem somos.
3. “Tinham medo de fazer perguntas”: aquilo que não conseguimos nomear pode começar a governar-nos
Talvez esta seja a frase mais humana do Evangelho de hoje.
Os discípulos não entendem.
E têm medo de perguntar.
Quantas vezes fazemos o mesmo?
Percebemos que algo mudou numa relação, mas evitamos conversar porque tememos a resposta.
Sentimos que estamos chegando ao limite, mas continuamos funcionando porque reconhecer o cansaço exigiria reorganizar a vida.
Notamos uma dificuldade interior persistente, mas adiamos pedir ajuda porque tememos aquilo que poderemos descobrir.
Sabemos que determinada situação precisa ser enfrentada, mas mantemos tudo indefinido porque a indefinição parece, temporariamente, menos dolorosa do que uma decisão.
O silêncio pode oferecer uma sensação provisória de proteção.
Mas aquilo que não nomeamos não desaparece.
Às vezes cresce no escuro.
Transforma-se em ansiedade, interpretações, distanciamento, ressentimento ou medo.
Perguntar exige coragem porque uma pergunta verdadeira abre a possibilidade de receber uma resposta que não controlamos.
“Você está bem?”
“O que aconteceu entre nós?”
“Por que estou vivendo assim?”
“Preciso continuar sustentando esta responsabilidade?”
“O que estou evitando?”
“Preciso de ajuda?”
Há perguntas que não precisam ser feitas impulsivamente. Precisam de tempo, contexto e discernimento. Mas existem também perguntas que adiamos não por prudência, e sim porque tememos que a verdade exija uma mudança.
Na relação com Deus acontece algo semelhante.
Podemos apresentar muitas respostas prontas e poucas perguntas verdadeiras.
A fé madura não elimina perguntas. Oferece um lugar onde podemos sustentá-las sem fugir.
Há perguntas cuja resposta virá lentamente. Algumas talvez permaneçam abertas por muito tempo. Mas existe diferença entre não possuir uma resposta e recusar-se a entrar na pergunta.
Jesus não exige que os discípulos compreendam tudo imediatamente.
O Evangelho apenas deixa exposto o medo deles de perguntar.
Talvez hoje a Palavra nos convide justamente a isso: dar nome à pergunta que temos evitado.
DESDOBRAMENTO PARA A VIDA - TRÊS MOVIMENTOS CONCRETOS
1. PERCEBER - Observe onde o reconhecimento influencia excessivamente seu estado interior
Preste atenção à maneira como reage quando é elogiado, ignorado, criticado ou quando outra pessoa recebe reconhecimento.
Pergunte:
“Quanto meu sentimento de valor está dependendo da resposta das pessoas?”
Não se condene pelo desejo de reconhecimento. Apenas perceba quando ele começa a dirigir suas escolhas.
2. REVER - Distinga responsabilidade de controle
Escolha uma preocupação concreta e divida-a interiormente em duas partes:
“O que realmente depende de mim?”
“O que não está sob meu controle?”
Assuma a primeira com responsabilidade.
Pare de exigir de si mesmo domínio sobre a segunda.
3. PRATICAR - Faça uma pergunta que você vem adiando
Identifique uma pergunta necessária.
Talvez precise fazê-la a si mesmo, a alguém de confiança, a uma pessoa com quem necessita conversar ou a Jesus na oração.
Não procure uma resposta confortável.
Procure uma resposta verdadeira.
Hoje, dê ao menos um passo para retirar essa pergunta do silêncio.
TRÊS PERGUNTAS PARA O CORAÇÃO
1. Em quais situações minha necessidade de ser reconhecido, necessário ou aprovado influencia minhas escolhas mais do que gostaria de admitir, e o que isso revela sobre a maneira como tenho sustentado meu próprio valor?
2. Que realidade concreta estou tentando controlar porque tenho dificuldade de aceitar minha vulnerabilidade, e como poderia distinguir com maior serenidade aquilo que me cabe transformar daquilo que preciso aprender a atravessar?
3. Que pergunta tenho medo de formular porque suspeito que uma resposta verdadeira poderá exigir de mim uma conversa, um limite, um pedido de ajuda, uma renúncia ou uma mudança?
COLÓQUIO - “COMO UM AMIGO FALA COM OUTRO AMIGO”
Permaneça alguns instantes em silêncio diante de Jesus e imagine os discípulos depois de testemunharem algo admirável. Em meio ao entusiasmo, Jesus lhes fala de uma realidade difícil, que eles não compreendem e têm medo de perguntar. Coloque-se nessa cena e converse com Ele como um amigo fala com outro amigo. Comece agradecendo pelo que está bem em sua vida, pelas pessoas, alegrias e frutos que hoje consegue reconhecer.
Depois, permita que Jesus o conduza para aquilo que é mais difícil acolher e pergunte: “Senhor, existe alguma verdade que tenho dificuldade de escutar porque não corresponde ao que eu gostaria que acontecesse?” Se surgir uma preocupação, uma mudança, uma relação ou uma decisão, não tente resolvê-la imediatamente. Conte a Jesus o que você teme perder, enfrentar ou descobrir e deixe que Ele encontre seu medo como ele realmente é.
Recorde então que os discípulos “tinham medo de fazer perguntas” e pergunte: “Jesus, qual é a pergunta que estou evitando?” Talvez ela toque sua maneira de viver, uma relação, seu cansaço, uma decisão adiada ou algo que precisa começar ou terminar. Coloque essa pergunta diante dele e diga: “Ajuda-me a não fugir da verdade apenas porque ainda não sei o que fazer com ela”.
Por fim, pergunte: “Jesus, diante da tua Palavra, o que desejas que eu compreenda, acolha e viva hoje?” Permaneça em silêncio. Talvez a graça deste encontro não seja receber imediatamente uma resposta, mas encontrar liberdade interior para fazer diante de Jesus a pergunta que o medo mantinha calada.
BÊNÇÃO PARA O DIA:
Que Deus Pai, fonte segura de sua dignidade, lhe conceda liberdade para não depender excessivamente da aprovação, do reconhecimento ou da necessidade de sentir-se indispensável.
Que Jesus Cristo, o Filho, que permaneceu fiel também quando o caminho passou pela vulnerabilidade, caminhe com você diante das realidades que não pode controlar e lhe dê coragem para enfrentar aquilo que precisa ser reconhecido.
Que o Espírito Santo ilumine seus medos, forme seu discernimento e lhe conceda lucidez para distinguir o que precisa ser transformado, o que necessita de ajuda e o que deverá ser atravessado com paciência e confiança.
E que Nossa Senhora, que guardou no coração acontecimentos que nem sempre compreendia imediatamente, acompanhe-o nas perguntas ainda abertas e lhe ensine a permanecer diante de Deus sem fugir da realidade nem exigir respostas antes do tempo.
Que neste dia você tenha coragem de não esconder o que sente, não sustentar sozinho aquilo que ultrapassa suas forças, não confundir prudência com adiamento e não permitir que o medo decida silenciosamente por você.
E que, ao final do dia, talvez ainda sem possuir todas as respostas, possa experimentar uma liberdade maior por ter colocado diante de Deus aquilo que verdadeiramente precisava ser perguntado.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.