Quando fazer o bem exige não permanecer indiferente
EVANGELHO DO DIA: Lc 6,6-11
Aconteceu num dia de sábado que Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar. Lá estava um homem que tinha a mão direita seca. Os mestres da Lei e os fariseus observavam Jesus, para ver se ele faria uma cura no dia de sábado, a fim de terem motivo para acusá-lo. Jesus, porém, conhecendo-lhes os pensamentos, disse ao homem da mão seca: “Levanta-te e fica aqui no meio”. Ele se levantou e ficou de pé. Jesus disse-lhes: “Eu vos pergunto: O que é permitido fazer no sábado: o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?”. Então Jesus olhou para todos os que estavam ao seu redor, e disse ao homem: “Estende a tua mão”. O homem assim o fez e a mão ficou curada. Eles se encheram de raiva e começaram a discutir entre si sobre o que fariam contra Jesus.
REFLEXÃO:
Jesus entra na sinagoga em dia de sábado e encontra um homem cuja mão direita está paralisada. Escribas e fariseus observam atentamente, não para compreender o sofrimento daquele homem, mas para encontrar uma razão para acusar Jesus. Conhecendo seus pensamentos, Jesus coloca o homem no centro e formula uma pergunta decisiva: “O que é permitido no sábado: fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou deixá-la perder-se?” Depois, pede ao homem que estenda a mão. Ele o faz, e sua mão é restabelecida.
A cena apresenta duas maneiras profundamente diferentes de olhar a realidade. Alguns enxergam primeiro uma possível transgressão; Jesus percebe uma pessoa cuja vida está limitada. Alguns procuram um argumento para acusar; Jesus procura uma possibilidade de restituir. O homem está no mesmo espaço religioso que todos os outros, mas sua fragilidade corre o risco de permanecer invisível até que Jesus o coloque no centro.
Neste 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil, o Evangelho acrescenta uma pergunta importante à celebração da liberdade: que significado possui a liberdade quando existem mãos que continuam impedidas de participar plenamente da vida? A independência de uma nação não se esgota em sua autonomia política; desafia-nos continuamente a construir uma sociedade na qual liberdade, dignidade, responsabilidade, justiça e cuidado alcancem concretamente as pessoas.
TRÊS PONTOS FORTES:
Podemos estar próximos do sofrimento e ainda assim não enxergar a pessoa
Todos veem o homem da mão paralisada. Entretanto, nem todos parecem vê-lo da mesma maneira. Para alguns, sua condição torna-se ocasião para testar Jesus. Aquilo que para o homem é sofrimento transforma-se, para outros, em argumento.
Essa cena revela uma possibilidade inquietante da condição humana: podemos conviver com a fragilidade sem verdadeiramente nos deixar tocar por ela.
Isso acontece quando nos acostumamos ao sofrimento. Depois de algum tempo, determinadas realidades passam a integrar a paisagem. Acostumamo-nos à solidão de alguém, à sobrecarga de uma pessoa, à vulnerabilidade de um idoso, ao sofrimento de uma família, às desigualdades sociais, à pobreza, à violência ou à exclusão. Sabemos que existem, mas já não permitimos que nos interroguem.
A indiferença nem sempre se apresenta como crueldade explícita. Muitas vezes assume formas socialmente aceitáveis: pressa, excesso de ocupações, racionalizações, distanciamento emocional ou a convicção de que determinado problema “não é responsabilidade minha”.
Também fazemos isso conosco. Podemos continuar funcionando durante muito tempo sem reconhecer aquilo que em nós está “paralisado”. Uma capacidade de confiar que diminuiu depois de uma decepção. Uma afetividade que se protegeu excessivamente. Uma criatividade abandonada. Um desejo de viver que se enfraqueceu. Uma relação que se tornou apenas funcional. Uma parte de nós que, por medo de sofrer novamente, deixou de se estender em direção à vida.
Nem toda paralisia é visível. Podemos realizar muitas coisas e, ainda assim, existir de maneira interiormente reduzida. Por isso, o Evangelho começa com uma pergunta silenciosa: o que em mim e ao meu redor tornou-se tão habitual que já não consigo perceber que necessita de cuidado? Jesus vê aquilo que os outros aprenderam a naturalizar. E talvez uma das primeiras graças da vida espiritual seja justamente esta: voltar a enxergar.
“Estende a mão”: a cura também exige participar do próprio processo
Jesus chama o homem para o centro e lhe pede: “Estende a mão”. Há algo profundamente humano nesse gesto. Jesus poderia agir sem pedir nada, mas convida o homem a participar daquilo que está acontecendo. E pede precisamente aquilo que parece impossível. Estender uma mão paralisada significa apresentar a Jesus justamente a parte que não responde como deveria. Aquilo que talvez o homem preferisse esconder torna-se o lugar do encontro.
Nós também desenvolvemos estratégias para esconder nossas “mãos paralisadas”. Procuramos mostrar competência, estabilidade, força e controle. Há fragilidades que protegemos tão cuidadosamente do olhar alheio que, depois de algum tempo, também deixamos de olhar para elas.
O Evangelho não glorifica a exposição indiscriminada da vulnerabilidade. Nem toda fragilidade precisa ser compartilhada com todos. A intimidade necessita de cuidado, confiança e discernimento. Mas existe uma diferença entre preservar a intimidade e esconder-se permanentemente de si mesmo.
Há coisas que só começam a mudar quando conseguimos dizer:
“Isso ainda dói”.
“Não consigo lidar sozinho com isso”.
“Tenho medo”.
“Preciso de ajuda”.
“Essa situação ultrapassou meus recursos”.
“Preciso rever minha maneira de viver”.
A maturidade não consiste em não precisar de ninguém. Consiste também em reconhecer responsavelmente os próprios limites e buscar os recursos necessários quando eles são ultrapassados.
Ao mesmo tempo, “estender a mão” possui outra dimensão: aquilo que foi restaurado pode voltar a tocar, trabalhar, acolher, oferecer e construir. A cura não termina na pessoa. Toda restauração verdadeira amplia nossa capacidade de relação.
Quando uma ferida deixa de governar nossas escolhas, tornamo-nos mais disponíveis. Quando diminuímos a necessidade de controle, conseguimos confiar mais. Quando aprendemos a reconhecer nossos limites, podemos respeitar melhor os limites alheios. Quando deixamos de precisar provar constantemente nosso valor, tornamo-nos mais capazes de reconhecer o valor dos outros.
Aquilo que Deus restaura em nós deseja tornar-se possibilidade de cuidado para além de nós.
“Fazer o bem ou fazer o mal?” - a neutralidade também produz consequências
A pergunta de Jesus é desconcertante porque não oferece uma terceira alternativa: fazer o bem ou fazer o mal, salvar ou deixar perder. Poderíamos responder: “Mas eu não estou fazendo mal algum; simplesmente não estou me envolvendo”. O Evangelho questiona justamente essa aparente neutralidade.
Há situações em que não fazer nada também produz consequências.
Quando sabemos que alguém está sendo humilhado e permanecemos silenciosos; quando percebemos uma injustiça e preferimos proteger nossa comodidade; quando temos responsabilidade sobre uma situação e adiamos indefinidamente uma decisão necessária; quando vemos alguém progressivamente isolado e nunca nos aproximamos, nossa ausência também entra na história.
Isso não significa que sejamos responsáveis por resolver todo sofrimento que encontramos. Uma espiritualidade sem limites facilmente se transforma em onipotência disfarçada de generosidade. Não podemos responder a todas as necessidades nem assumir todas as causas.
A pergunta madura é outra:
“Diante daquilo que está concretamente ao meu alcance, qual é a responsabilidade que me cabe?”
No Dia da Independência do Brasil, essa pergunta ultrapassa a esfera individual.
Liberdade não é apenas poder fazer aquilo que desejamos. A liberdade amadurece quando se torna capacidade de escolher responsavelmente o bem possível.
Uma sociedade verdadeiramente livre precisa perguntar pelas mãos que ainda permanecem impedidas de se estender: pessoas privadas de oportunidades, educação, trabalho digno, segurança, cuidado, participação e reconhecimento de sua dignidade.
Não se trata de transformar o Evangelho num programa político. Trata-se de reconhecer uma consequência inevitável da fé cristã: ninguém pode afirmar que ama a Deus e considerar irrelevante a dignidade concreta das pessoas.
A pergunta de Jesus atravessa, portanto, nossa vida pessoal, comunitária e social:
O bem que está ao meu alcance está sendo realizado?
Talvez não possamos mudar estruturas inteiras hoje. Mas podemos examinar a pequena parcela da realidade sobre a qual nossas escolhas possuem influência: nossa família, comunidade, ambiente profissional, instituição, vizinhança, relações e modo de participar da sociedade.
A liberdade cristã não pergunta apenas:
“O que tenho direito de fazer?”
Pergunta também:
“O que posso fazer com a liberdade que recebi para que alguém tenha mais possibilidade de viver?”
DESDOBRAMENTO PARA A VIDA - TRÊS MOVIMENTOS CONCRETOS:
PERCEBER - Identifique uma “mão paralisada”
Observe sua vida e pergunte-se:
“Que capacidade minha diminuiu nos últimos tempos?”
Talvez seja confiar, pedir ajuda, descansar, demonstrar afeto, dialogar, colocar limites, criar, esperar ou aproximar-se de alguém.
Não se critique. Apenas reconheça aquilo que precisa novamente de atenção.
REVER - Examine uma indiferença que se tornou habitual
Pense numa pessoa ou situação que você vê frequentemente, mas à qual deixou de prestar verdadeira atenção.
Pergunte:
“Acostumei-me a algum sofrimento simplesmente porque ele não me atinge diretamente?”
Não assuma responsabilidades que não lhe pertencem. Procure apenas reconhecer honestamente se existe algum bem possível que você vem adiando.
PRATICAR - Estenda concretamente a mão
Faça hoje um gesto que devolva possibilidade a alguém.
Pode ser escutar uma pessoa que costuma permanecer à margem, compartilhar uma responsabilidade, reconhecer o trabalho de alguém pouco percebido, oferecer ajuda concreta, reparar uma atitude, defender respeitosamente quem está sendo diminuído ou simplesmente aproximar-se de quem percebe estar sozinho.
Que sua mão estendida não procure produzir dependência, mas devolver dignidade e possibilidade.
TRÊS PERGUNTAS PARA O CORAÇÃO:
1. Que parte de minha vida ficou progressivamente “paralisada” depois de alguma ferida, medo, decepção ou cansaço, e o que tenho feito para esconder ou compensar essa realidade?
2. Diante de quais sofrimentos, pessoas ou situações comecei a proteger-me através da indiferença, da pressa ou da justificativa de que “isso não é problema meu”?
3. Que uso concreto posso fazer hoje de minha liberdade para que alguém ao meu redor encontre mais dignidade, participação, esperança ou possibilidade de viver?
COLÓQUIO - “COMO UM AMIGO FALA COM OUTRO AMIGO”
Permaneça alguns instantes em silêncio diante de Jesus. Imagine-se na sinagoga e escute-o dizer: “Levanta-te e fica aqui no meio”. Deixe que Jesus olhe também para aquilo que você costuma esconder. Qual é hoje sua “mão paralisada”? Onde você perdeu liberdade, confiança ou coragem para recomeçar? Fale-lhe com simplicidade. Diga onde dói, onde existe medo e onde você precisa de ajuda.
Depois, escute: “Estende a mão”.
Pergunte: “Jesus, o que significa para mim estender a mão hoje?” Talvez seja pedir ajuda, conversar, colocar um limite, voltar a tentar ou aceitar ser cuidado. Apresente-lhe também as pessoas que precisam de suas mãos e pergunte: “Qual é o bem que realmente está ao meu alcance?”
Neste Dia da Independência, peça também a graça de uma liberdade que não seja apenas para si, mas que se transforme em responsabilidade, cuidado e compromisso com a vida.
Por fim:
“Jesus, diante da tua Palavra, o que desejas que eu compreenda, acolha e viva hoje?” Silencie. E peça coragem para estender justamente a mão que você aprendeu a esconder.
BÊNÇÃO PARA O DIA:
Que Deus Pai, Criador de cada pessoa em dignidade e liberdade, lhe conceda olhos atentos para perceber aquilo que a rotina tornou invisível e um coração capaz de não se acostumar ao sofrimento.
Que Jesus Cristo, o Filho, que colocou no centro aquele que permanecia à margem, encontre também suas fragilidades escondidas, restaure aquilo que o medo paralisou e lhe ensine a usar sua liberdade para fazer o bem.
Que o Espírito Santo lhe dê discernimento para reconhecer a responsabilidade que verdadeiramente lhe cabe, coragem para agir quando sua presença for necessária e humildade para respeitar aquilo que ultrapassa seus limites.
E que Nossa Senhora, mulher livre para dizer seu “sim” e disponível às necessidades concretas da vida, acompanhe seus passos e lhe ensine a transformar liberdade em serviço, presença e cuidado.
Neste Dia da Independência do Brasil, que Deus abençoe nosso país e nos faça compreender que uma nação se torna verdadeiramente livre quando a liberdade não é privilégio de alguns, mas se traduz em dignidade, responsabilidade, justiça, respeito e possibilidade de vida para todos.
Que, ao final deste dia, você possa reconhecer pelo menos uma situação na qual sua presença tenha ajudado alguém a estender novamente a mão para a vida.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.