Caminhar com Jesus: quando seguir também significa deixar-se acompanhar
EVANGELHO DO DIA: Lc 8,1-3
Naquele tempo,
1 Jesus andava por cidades e povoados proclamando e anunciando a Boa Nova do Reino de Deus. Os doze iam com ele;
2 e também algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos maus e de doenças: Maria, chamada Madalena, de quem saíram sete demônios;
3 Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes; Susana, e muitas outras mulheres, que os ajudavam com seus bens.
REFLEXÃO
O Evangelho de hoje é breve, mas guarda uma imagem profundamente significativa da vida cristã. Jesus percorre cidades e povoados anunciando a Boa-Nova do Reino de Deus. Com Ele estão os Doze e também algumas mulheres — Maria Madalena, Joana, Susana e muitas outras — que haviam experimentado cura e libertação e agora participavam concretamente da missão, colocando seus bens a serviço da comunidade.
Lucas nos permite contemplar não apenas Jesus que anuncia, mas Jesus que caminha acompanhado. Ao redor dele existe uma rede de pessoas diferentes, com histórias, experiências e recursos distintos. A missão não acontece na solidão. O Reino vai sendo anunciado enquanto pessoas caminham juntas, recebem, oferecem, cuidam e permitem ser cuidadas.
Essa pequena passagem toca uma questão decisiva de nossa existência: que lugar damos aos vínculos em nossa maneira de viver a fé, assumir responsabilidades e realizar nossa missão? Podemos tornar-nos tão habituados a cuidar, decidir, organizar e oferecer que deixamos de perceber nossa própria necessidade de companhia. O Evangelho recorda que ninguém amadurece sozinho. A autonomia saudável não elimina a necessidade do outro; torna-nos capazes de viver os vínculos com maior liberdade, reciprocidade e responsabilidade.
TRÊS PONTOS FORTES
1. Jesus caminhava acompanhado: precisar dos outros não diminui nossa maturidade
“Os Doze iam com ele; e também algumas mulheres..”.
Poderíamos passar rapidamente por essa informação, mas ela revela algo importante. Jesus não organiza sua missão como um indivíduo autossuficiente. Ele chama pessoas, aceita companhia, forma comunidade e permite que outros participem concretamente daquilo que realiza.
Há uma concepção de força que pode nos tornar interiormente solitários. Aprendemos que ser maduro significa resolver sozinho, não incomodar, não demonstrar necessidade e estar sempre disponível para sustentar os outros. Essa postura pode receber reconhecimento porque produz uma imagem de competência e generosidade. Entretanto, mantida por muito tempo, cobra um preço.
Quem está sempre na posição de quem oferece pode perder a capacidade de receber.
Quem está acostumado a cuidar pode sentir vergonha quando precisa ser cuidado.
Quem costuma possuir respostas pode experimentar dificuldade para dizer: “Não sei”.
Quem é referência para muitas pessoas pode descobrir que possui poucos lugares nos quais pode simplesmente ser pessoa, sem função, desempenho ou expectativa.
A maturidade humana não consiste em eliminar a dependência, mas em transformá-la. A criança depende porque ainda não possui recursos suficientes. O adulto amadurecido desenvolve autonomia, mas reconhece que continua sendo um ser relacional. Precisar de afeto, amizade, escuta, pertença e apoio não é fracasso da maturidade; faz parte da condição humana.
O problema surge quando a necessidade do outro se transforma em dependência que aprisiona ou, no extremo oposto, quando o medo de depender nos leva a construir uma autossuficiência defensiva.
Jesus mostra outro caminho: possui identidade e missão claras e, justamente por isso, pode caminhar acompanhado.
Talvez seja importante perguntar:
quem conhece minha vida para além daquilo que faço?
Não quem sabe muitas informações sobre nós, mas quem conhece nossas alegrias, medos, cansaços, perguntas e esperanças.
Há solidões que não nascem da ausência de pessoas, mas da ausência de relações nas quais podemos existir sem precisar desempenhar um papel.
2. Quem foi cuidado torna-se capaz de cuidar: a gratidão amadurece quando se transforma em disponibilidade
Lucas recorda que aquelas mulheres haviam sido curadas de enfermidades e libertadas de experiências que as faziam sofrer. Depois acrescenta que elas colocavam seus recursos a serviço de Jesus e dos discípulos.
Há um movimento profundamente humano e espiritual nessa passagem:
receber → reconhecer → oferecer.
Elas não servem para comprar o amor de Jesus. Servem porque foram alcançadas por uma experiência que reorganizou sua existência.
Essa diferença é fundamental.
Podemos servir a partir da liberdade ou da necessidade de provar valor. Podemos ajudar porque desejamos o bem do outro ou porque precisamos sentir-nos indispensáveis. Podemos oferecer generosamente e, ao mesmo tempo, esperar silenciosamente reconhecimento, gratidão ou reciprocidade.
Externamente, os gestos podem parecer iguais. Interiormente, nascem de lugares muito diferentes.
Quando nosso valor depende de sermos necessários, dizer “não” torna-se difícil. Assumimos responsabilidades demais, ultrapassamos limites e depois podemos sentir ressentimento porque ninguém percebe quanto fazemos.
Nesse caso, aquilo que começou como serviço pode transformar-se silenciosamente em sobrecarga.
O Evangelho apresenta outra dinâmica. O serviço nasce de uma experiência recebida.
Quem sabe que recebeu gratuitamente não precisa transformar sua entrega numa moeda para comprar amor.
Isso também nos ajuda a compreender a gratidão. Gratidão não é dívida emocional. Não significa sentir que precisamos pagar indefinidamente pelo bem que alguém nos fez. A verdadeira gratidão amplia nossa capacidade de oferecer vida.
Alguém nos escutou e aprendemos a escutar.
Fomos acolhidos num momento difícil e tornamo-nos mais atentos à fragilidade alheia.
Recebemos uma oportunidade e passamos a reconhecer quem também necessita de uma.
Fomos perdoados e descobrimos maior paciência com o processo dos outros.
O bem recebido torna-se fecundo quando não termina em nós.
A pergunta não é apenas: “O que Deus já fez por mim?”
É também:
“Em que tipo de pessoa aquilo que recebi está me transformando?”
3. O Reino acontece numa rede de vínculos: ninguém é apenas aquele que dá, nem apenas aquele que recebe
Lucas faz questão de nomear algumas mulheres: Maria Madalena, Joana e Susana. Outras permanecem sem nome, mas não sem importância.
A missão de Jesus é sustentada por uma comunidade na qual diferentes pessoas oferecem aquilo que possuem. Algumas anunciam, outras acompanham, outras colocam recursos à disposição. A diversidade não diminui a missão; torna-a possível.
Isso confronta nossa tendência de hierarquizar contribuições humanas.
Valorizamos aquilo que aparece, lidera, fala, decide e produz resultados visíveis. Entretanto, grande parte da vida é sustentada por gestos discretos: alguém prepara, escuta, organiza, acompanha, intercede, cuida, acolhe, percebe uma necessidade antes que ela se transforme em problema.
Nem toda fecundidade é visível.
Há pessoas cuja presença sustenta ambientes inteiros e talvez quase ninguém perceba.
O Evangelho também nos convida a rever relações nas quais uma pessoa ocupa permanentemente o lugar de quem dá e outra o lugar de quem recebe. Vínculos maduros precisam, na medida do possível, de alguma reciprocidade. Não necessariamente uma reciprocidade matemática — cada pessoa oferece aquilo que pode —, mas a experiência de que todos possuem dignidade, voz e alguma possibilidade de contribuição.
Quando ajudamos alguém, portanto, não deveríamos perguntar apenas:
“Do que esta pessoa precisa?”
Também podemos perguntar:
“Que recursos, capacidades e possibilidades existem nela que precisam ser reconhecidos?”
Cuidar não é tornar o outro dependente de nós.
É ajudá-lo, sempre que possível, a reencontrar sua própria capacidade de participar da vida.
O mesmo vale para nós. Precisamos permitir que os outros contribuam conosco. Às vezes recusamos ajuda não porque não necessitamos dela, mas porque receber nos coloca numa posição de vulnerabilidade.
Aceitar cuidado exige humildade.
Significa reconhecer:
“Hoje, não sou apenas aquele que oferece. Também preciso receber”.
Jesus caminha acompanhado.
Talvez uma espiritualidade profundamente encarnada comece quando compreendemos que Deus não nos conduz apenas através da oração, das Escrituras e dos sacramentos. Muitas vezes, Ele também chega até nós através das pessoas que colocou no caminho.
DESDOBRAMENTO PARA A VIDA - TRÊS MOVIMENTOS CONCRETOS
1. PERCEBER - Observe como você reage quando precisa de ajuda
Pergunte-se hoje:
“O que sinto quando preciso depender de alguém?”
Constrangimento? Medo de incomodar? Sensação de fraqueza? Necessidade de devolver imediatamente o favor?
Perceba se sua dificuldade de receber está escondida sob uma imagem de autossuficiência.
2. REVER - Examine de onde nasce seu serviço
Escolha uma responsabilidade à qual você dedica muita energia e pergunte:
“Estou oferecendo isso com liberdade ou preciso dessa função para sentir-me necessário, reconhecido ou valorizado?”
Se houver sobrecarga, talvez não seja preciso abandonar o compromisso, mas rever limites, dividir responsabilidades ou aceitar que outras pessoas façam de maneira diferente da sua.
3. PRATICAR - Transforme gratidão em cuidado concreto
Recorde alguém de quem você recebeu algo importante: tempo, escuta, oportunidade, presença, perdão ou confiança.
Não precisa necessariamente retribuir à mesma pessoa.
Escolha alguém que hoje necessite daquilo que um dia você recebeu e ofereça-lhe uma pequena expressão desse mesmo bem.
Deixe o cuidado continuar seu caminho através de você.
TRÊS PERGUNTAS PARA O CORAÇÃO
1. Em que área da minha vida construí uma imagem de força e autossuficiência que dificulta admitir cansaço, necessidade, fragilidade ou desejo de ser acompanhado?
2. Que formas de serviço e cuidado nascem verdadeiramente da liberdade e da gratidão, e quais podem estar ligadas à minha necessidade de reconhecimento, controle ou de sentir-me indispensável?
3. Quem Deus colocou concretamente em meu caminho para caminhar comigo, e que passo preciso dar para tornar meus vínculos mais recíprocos, verdadeiros e capazes tanto de oferecer quanto de receber cuidado?
COLÓQUIO - “COMO UM AMIGO FALA COM OUTRO AMIGO”
Permaneça alguns instantes em silêncio diante de Jesus e imagine-o caminhando pelas estradas da Galileia, acompanhado por pessoas diferentes, cada uma com sua história. Coloque-se também nesse caminho e recorde aqueles que fizeram parte de sua vida: pessoas que permaneceram por muito tempo e outras que passaram brevemente, mas deixaram marcas. Agradeça a Jesus pelo cuidado que chegou até você por meio de tantos rostos, palavras, gestos e presenças.
Depois, converse com Ele como um amigo fala com outro amigo sobre sua maneira de cuidar dos outros. Conte-lhe onde está cansado, onde talvez esteja oferecendo mais do que consegue sustentar ou onde começou a precisar sentir-se indispensável. Pergunte: “Jesus, onde meu serviço deixou de ser inteiramente livre?” Permaneça em silêncio e perceba se existe alguma responsabilidade que precisa ser compartilhada, alguma expectativa de reconhecimento que precisa ser acolhida ou alguma tarefa que você precisa permitir que o outro assuma.
Pergunte também: “Jesus, quem está tentando cuidar de mim e eu não estou permitindo?” Talvez exista uma presença que você não tem acolhido, uma conversa que vem adiando ou simplesmente a dificuldade de admitir que também precisa dos outros. Jesus não percorreu seu caminho sozinho; permita que essa verdade alcance sua maneira de viver.
Por fim, pergunte: “Jesus, diante da tua Palavra, o que desejas que eu compreenda, acolha e viva hoje?” Permaneça com Ele. Talvez a graça seja descobrir que cuidar também significa deixar-se cuidar e que não é preciso caminhar sozinho para demonstrar que se é forte.
BÊNÇÃO PARA O DIA
Que Deus Pai, fonte de toda comunhão, lhe conceda a graça de reconhecer com gratidão as pessoas através das quais sua bondade já alcançou sua vida.
Que Jesus Cristo, o Filho, que percorreu caminhos acompanhado por homens e mulheres concretos, lhe ensine a servir sem precisar ser indispensável, a amar sem controlar e a permitir que outros também caminhem ao seu lado.
Que o Espírito Santo ilumine seus vínculos, revele as relações que precisam de maior verdade e reciprocidade e lhe dê liberdade para pedir ajuda quando necessário, oferecer cuidado sem dominar e receber sem sentir-se diminuído.
E que Nossa Senhora, que soube oferecer-se inteiramente a Deus e também receber o cuidado de José, de Isabel, do discípulo amado e da comunidade, acompanhe seus caminhos e lhe ensine a delicada reciprocidade de quem sabe acolher e deixar-se acolher.
Que neste dia você reconheça que não precisa fazer tudo sozinho, sustentar todos continuamente nem esconder suas próprias necessidades para ser uma presença boa na vida das pessoas.
Que possa oferecer aquilo que tem sem ultrapassar seus limites, reconhecer o valor da contribuição dos outros e permitir que o bem recebido continue produzindo frutos através de suas escolhas e relações.
E que, ao final do dia, possa agradecer não apenas por aquilo que conseguiu realizar, mas também pelas pessoas com quem pôde caminhar, por aquelas que se deixaram cuidar e por aquelas que tiveram a graça de cuidar de você.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.